Você tem coragem de quê?

 

A pergunta não deveria ser “Você tem fome de quê?”, mas “Você tem coragem de quê?”.

Outro dia fiquei pensando por horas naquela citação da divina Adélia Prado, “Não quero faca nem queijo. Quero a fome”. Acho lindo isso de não querer faca nem queijo. Mas o que eu admiro, mesmo, é gente que tem CORAGEM de matar a fome. Poucos a tem, é verdade. Poucos têm essa natureza efervescente que faz querer engolir o mundo.

Acho que o que me fez parar para pensar nisso foi a declaração de alguém por quem tenho o maior respeito, que me confessou ter fome, mas ficar paralisado diante da vitrine de doces, sem saber o que pedir, com medo de se saciar com o menos saboroso, ou de que alguém leve o outro que não foi escolhido por ele.

Matar a fome é para os que têm coragem. Agora, 8 e pouco da noite, eu te provoco: O que o tamanho da tua coragem te permite? Morrer por inanição? Se alimentar apenas o suficiente para sobreviver? Saborear de olhos fechados as melhores colheradas que a coragem permitir?

Hoje tenho alguns medos e muitas coragens. A maioria dos meus medos é irreal, inventada por uma cabeça que não para. Mas tenho a grande coragem, a que busca até encontrar. A que me lança dos abismos só para descobrir se sou capaz de voar. A que mergulha mesmo tendo enjoo de barco.

Coragem é se descobrir todos os dias um ser diferente, sem parar para pensar no que mudou. Coragem é desatar nós e dar novos laços. Romper com as certezas e viver das dúvidas. É poder escolher entre o sorvete de queijo com calda de goiabada, o chocolate suíço, o alfajor argentino ou, se nada disso apetecer, uma boa xícara de café – sem açúcar, por favor, que tem dias que o doce arranha a garganta.

A grande coragem é não estremecer ao descobrir que se pode escolher. É sorrir diante das possibilidades e sair por aí, descalço, na chuva, vestido só com a alma. Porque estar nu, principalmente por dentro, exige uma grande coragem. Mas traz uma recompensa ainda maior. Agora, me responda rápido: Você tem coragem de que, mesmo??

Olhos de fotografar

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Os pés. As mãos. A boca entreaberta enquanto dorme. Cliques silenciosos da retina. Fotografia não impressa da intimidade, para guardar os detalhes do que não se segura no tempo ou no espaço. Talvez em algum cantinho da memória.

Eles levam potentes câmeras, de longuíssimo alcance. Registram a flor, a nuvem, o concreto. Mais reservadamente, colecionam no olhar os pares de pés de todos os amados. Os passos na própria direção e os que se afastaram na hora de ir. Guardam nos olhos fechados as mãos agarrando objetos, escrevendo histórias, fazendo brindes, empunhando instrumentos. E como se a memória fosse um álbum de fotos, folheiam cada toque com a lembrança.

Fotografar a intimidade com o olhar é imortalizar pequenos quadros do que se compartilha com poucos. Emoldurar o tempo. “Tempus fugit”, alguém já dizia. Ver a intimidade com perspectiva de repórter fotográfico é escolher o ângulo que melhor representa o momento a ser eternizado. É dar manchete aos afetos mais preciosos. Como uma criança com o doce na mão, guardar o melhor para o final.

Quem fotografa  mentalmente a própria intimidade prende o que nunca mais será daquele jeito na imagem e, no entanto, permanecerá para sempre igual. Guarda em permanência na memória os sentimentos de um instante.

Revive o momento quem se sabe eternamente efêmero. Fotografar o perecível é poder retornar ao que se desmanchou no ar. Ao que se desfez num sopro, num virar de esquina, num piscar de olhos. É brindar novamente ao início e ao fim de tudo.

Canção para as marés

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O Retorno de Ulysses – Giorgio de Chirico

O que acontece quando se dá mais de 40 voltas em torno do mesmo lugar? Como é que o olhar se transforma? Você canta no mesmo tom ou mais afinado?

Se fosse 20 e tantas voltas atrás, desafinaria. Cantaria em outro tom. Mais grave, como a cabra montanhesa agarrada na pedra. Primeiro dó do piano. Inatingível.

Vinte voltas à frente, duas oitavas acima. Afinada. “I’m feeling good”, canta a Nina e ela acompanha. Solta o corpo e o mar a leva. Abre os olhos devagar para não cegar: “Sun in the sky, you know how I feel”.

Joga os dados. Volta 20 casas, mas se mantém 20 casas à frente. Tempo e espaço são relativos, disse aquele moço Einstein, e estes dias ela tem compreendido. De que matéria eles eram feitos 5 tons abaixo? Vieram da poeira da mesma estrela, que a matéria é magnética? Teria sido impossível duas oitavas abaixo, mas como achar duas oitavas acima sem elas?

Rodopiou mais de 40 voltas. “Tava tudo tão facinho no rasinho e eu sem me dar conta fui indo”, canta o radinho. E o mar a leva. A leva. A arrasta.

Hoje ela sonhou com o mar. Com o cheiro que tem o mar quando a pessoa zarpa. Hoje ela sonhou que não havia porto. Havia um labirinto aquático e não era mais possível desembarcar. Ela ondula solfejando oitavas e escrevendo entrelinhas quase invisíveis. Escolhendo nas veredas bifurcadas infinitamente, constrói seu próprio labirinto entre as águas. Às vezes cansa e se deixa solta, a observar. Sente a bola de fogo que sobe e desce no peito e a queima com calma. Deixa o corpo afundar e de repente, depois da apneia, tudo é mansidão.

Navega. Navega. Mais uma volta, duas, dez. Uma oitava acima, ou abaixo. Concerto para piano e voz.

Fragmento do delírio

Delirium (Sandman)

{Publicado originalmente em escritorassuicidas.com.br}

Ouvi o grito em mim e às sete da manhã estalei os olhos sem mover mais um músculo sequer. Olhei para o teto. Era tudo silencioso. Só o barulho de ir e vir da respiração me distraía.

Um aperto no peito. Como se nunca mais fosse capaz de me libertar dele de novo. Uma agonia sem nome. Solidão. Tristeza. Raiva. Não sei. Não entendi ainda o que era. Eu pensava como se estivesse do lado de fora de mim e aquele deitado na cama fosse outro, de quem eu nunca soubera.

Era eu aquele paralisado, de olhos abertos e coração disparado. Mas eu não mandava em mim. Eu já não coordenava mais minhas ideias. Era só o aperto no peito e aquela voz, tão sinistra e familiar que me dizia, no silêncio dos meus pensamentos: você não vai escapar.

Escapar. De quê? De quem? Eu não sabia rezar. Nem chamar Deus, se é que ele de fato existia ou se importava comigo, com minha consciência corrompida, com meu corpo quase decomposto e, entretanto, vivo. Deus não estava ali para me devolver a mim. Nunca estaria. Ninguém me traria de volta. Nem deuses, nem demônios.

Um cigarro. Dois. Dez. Nem meia hora, outro uísque. O fim da garrafa de vodca polonesa. Minha preferida e eu não comprei outra. Não importa. Eu não sou eu. Eu sou aquele que construí e que não tem preferências. Ou eu sou o outro, o que não sabe que eu existo ou que quer me enlouquecer? A faca me olhando de cima da mesa. Aquela música, de novo. Eu não queria lembrar. E eu cantava. Nervosamente, cantava enquanto a voz gargalhava aqui dentro. Deixei de fumar para saber que eu ainda mandava em mim. Parei de beber porque precisava ter certeza de que ainda controlava meu desejo.

Desejo, um estranho. Desde quando saí de mim não sei mais o que é o querer. Quis tanto, demais. Quis tudo. Agora, não sei mais o que me mantém vivo. Não sei mais o que me deixa ser lúcido dentro do caos. Quase dois meses aqui, fechado nesse quarto e eu ainda não sei.

Escrevo cartas de despedida. Cartas de amor tardio. Cartas de desabafo. Entupo e-mails indiscriminadamente porque estou só. Com minha abstinência. Minha revolta. Minha dor. Minha melancolia. Meu medo de amar e de não amar. Tenho adorado figuras distantes e antigas, como se fossem parte de um altar pessoal. As mesmas pessoas que eu não quis manter por perto. Quem explica? Quem garante que minha loucura não começou muito antes de eu estar aqui, tentando saber quem manda em mim — eu ou o outro eu?

Esboço me levantar e a chuva bate na janela. Sento-me na cama. Nada em mim me pertence. Tento voltar e conjugo verbos. Primeiro os regulares, depois os irregulares. Me distraio por horas, como se um dia pudesse usá-los de novo.

Do imponderável

“Não te opõe ao curso do rio

Nem persegue o vento”

{Vanguart}

Marc Chagall, Promenade, 1917–18.

Marc Chagall, Promenade, 1917–18.

Gosto de pensar que palavras não dizem nada. Que nomenclaturas não representam o todo. Que o que faz sentido mora do lado de dentro, move, faz fluir – mesmo que tudo pareça silêncio – com a força de um tsunami. Gosto de saber que o que importa não tem relógio nem aviso sonoro. Que o que faz sentido não pergunta o que quer o eu mais íntimo, mas faz o mais profundo do ser flutuar sobre a água morna dos dias, sereno apesar das ondulações. “É só soltar o corpo que o mar não te afoga”, aprendi. Gosto de sentir que o que importa não se enquadra em teorias, raciocínios, princípios, fundamentos, especulações.

Sentir é pessoal. Não tem condições nem regras. Não tem tempo nem espaço. Sentir é um mundo paralelo. Montar quebra-cabeças de cinco mil peças no escuro é um mundo paralelo. O vento que muda tudo de lugar por dentro é um mundo paralelo. Estar de olhos abertos quando nasce o sol é um mundo paralelo. Ver o fio do dia se romper e de repente a escuridão chegar é um mundo paralelo. Acontece ininterruptamente e, no entanto, é sempre único e tantas vezes esquecido, a não ser que.

Gosto de pensar que a não ser que estejamos atentos não vemos o instante. Aquele. A não ser que seja um tempo remoto, é sempre hora. A não ser que seja outro mundo, é sempre muito perto e aqui dentro. Gosto dessa sensação incomum e tão familiar que não se nomeia, não se define, nada abrange nem questiona. Tenho um jeito estranho de gostar.

Little wings

Nos ombros, o peso

O sonho no esquecimento

Na morte, a leveza

 

Pés fincados no vago

Cabeça flanando no vasto

E no peito a fúria de um titã

 

Síndrome de Atlas

Levar o mundo

E não percorrê-lo

 

Depois, trocar de nome

Arrancar a carga

Desfazer o árduo

 

Asas nos pés

Riso na alma

Rápidos movimentos

 

Borboleta

Passarinho

Leão alado

Mercúrio

 

Bom é mergulhar no ar

E ter mãos firmes

Onde pousar

Do amor

Image

 

No fim, bem no fim, o amor não era o estrondo, nem vendaval que bagunçasse os cabelos e o peito. Não eram as ondas gigantes que arrastavam e afogavam. Não era enlouquecimento e nem um desatino. Não era areia movediça nem deserto. O amor não gritava, não corria, não gesticulava. Não fazia redemoinhos nem a matava eletrocutada. Não era insônia. Não era ansiedade. O amor não era vermelho. O amor não era o absurdo.

No fim, o amor era isso: essa coisa translúcida, tranquila, silenciosa. Essa brisa morna que envolvia e acalmava. O amor, no fim das contas, era essa coisa serena que ela não sabia nominar. Essa desnecessidade de presença, de orbitar e ser orbitada. Amor, afinal, era uma alegre quietude. Uma certeza na vastidão do tempo e do espaço. O amor, esse deslumbramento, era saber o outro bem e estar feliz apenas por isso. Era um encantamento, uma suspensão, uma epifania. Era o amor, afinal, amor. Agora ela sabia.

Ponto sem nó

*Publicado originalmente em escritorassuicidas.com.br

 

“Quando é bom não dura e quando dura já não entusiasma”

(Jurandir Freire Costa)

 

“Uma rede é uma soma de nadas. Linhas amarradas que contêm o vazio. É só a promessa de segurar alguma coisa que precisa entrar nela por vontade própria. Uma ilusão de agarrar um dia o grande peixe.”

 Marina chegou à antiga casa dos avós bem cedo naquele sábado. Entrou devagar, observando a casa onde passou a infância. Percorreu os cômodos escuros, onde só havia o silêncio desabitado. A placa anunciando a venda da casa, no jardim, anunciava o fim de um ciclo. A garota assistia, agora, o fim do amor.

 “Por muitas vezes cheguei a achar que meu casamento foi um erro. As traições contínuas do Agenor, a humilhação de todos saberem dos casos, jamais se afastaram completamente de mim. Nunca esqueci das brigas. Os gritos, as agressões mútuas que só terminavam quando percebíamos que as crianças choravam apavoradas, escondidas sob os travesseiros. Não foram poucas as noites em que passei acordada, desesperada por saber onde Agenor estava, ou se voltaria para casa. Outras tantas vezes, fingi não saber de nada. No fim da vida, me pergunto: foi ele quem entrou na minha armadilha de casamento ou fui eu que caí na teia ilusória da felicidade completa?”

 Marina fechou o diário, cuja última página escrita soava como um desabafo. A única história de amor possível que conhecia, acabava de se desmanchar diante de seus olhos. Se aquele amor que, aparentemente, era feliz, não tinha toda essa alegria, que esperanças ela poderia ter no amor?

 Marta, sua avó, havia ficado viúva há cinco meses. Tempo suficiente para perder o brilho os olhos envelhecer a ponto de aparentar bem mais que seus 65 anos. “A vida está me escapando”, dizia ao se olhar no espelho e constatar que os cabelos estavam cada vez mais brancos e a pele cada vez menos lisa. Um mês antes de morrer, porém, abriu o velho caixote, grande e empoeirado, como as próprias lembranças, e ficou por longos minutos olhando para o emaranhado das linhas, o amontoado de agulhas, o malheiro. Perdida em pensamentos sobre o passado, foi puxando a renda, que por vezes se enroscava nas lascas da madeira da caixa e arrebentava um ou outro nó, dilacerando o tecido, aumentando o buraco por onde nada entraria nem escaparia. Estendeu a trama não terminada no chão e lembrou das longas tardes em que o marido se sentava na varanda da casa para tecer. Agora, tudo estava morto: o marido, com quem ela viveu por 45 anos, o amor, pelo qual ela lutou ao longo da vida, a possibilidade daquela malha interrompida algum dia ter serventia.

 “As dificuldades foram muitas”, escreveu logo depois que o marido morreu. “Não sei se vou suportar viver sozinha, porque me acostumei a andar junto. Perdoei mil vezes, aguentei todo tipo de dificuldade. Mas em nome de quê? De satisfazer os sonhos que as pessoas fazem uma garota de 20 anos acreditar que são satisfatórios? Depois de um tempo me acostumei à solidão acompanhada dos casais que não se amam mais. Como se nadassem juntos para uma mesma direção, mas sem nunca se tocarem: nenhuma palavra, nenhum afeto. O amor morre quando a gente pensa que se ele estiver bem amarrado não vai fugir. Bobagem! Só o que a gente faz é arrastar um amor morto junto ao próprio corpo. Agora minhas nadadeiras estão quebradas e não posso mais enfrentar o mar.”

 Marina encontrou a casa do jeito que a avó tinha preparado. A mulher procurava um lugar menor para viver, já que estava sozinha. Se apequenou, como se apequenam certos tipos de peixe, diante da vastidão do mar. Estava se desfazendo de antigos objetos muito familiares a ela. Às vezes, mergulhada em velhos armários fechados há anos, descobria velhos guardados que o marido mantinha, como o caixote que ela acabara de abrir. Uma caixa de Pandora das próprias lembranças, das quais ela aos poucos se desfazia. A morte, porém, pegou a mulher de surpresa. À neta coube a tarefa de desmontar a casa, a história da família.

 Uma semana antes, Marina rompeu com o namorado, Augusto, que a havia pedido em casamento. A garota, de 25 anos, não concebia que a felicidade de alguém pudesse vir de outra pessoa.“Ninguém pode ser feliz estando preso, vovó. Amar pressupõe liberdade. Fora disso, é escravidão”, ela ensaiou argumentar para quando a avó a julgasse louca por recusar o pedido. Ela conhecia bem a história da avó, que moveu mundos em nome do próprio casamento. Marta, que em termos de amor só tinha o marido como experiência, contou milhares de vezes à neta como desejou se casar. Como tramou milimetricamente para que tudo saísse conforme seus planos. Como afastou as possíveis rivais uma a uma espalhando pela cidade inverdades a respeito delas,  como traçou planos para trazê-lo à sua casa, e que não deixou margem para que ele escapasse a qualquer encontro. Levou-o, enfim, ao altar, vitoriosa. 

 Marina finalizou a leitura do diário estarrecida por constatar que as artimanhas da avó não tenham resultado na felicidade sem fim, como houvera programado. Paradoxalmente, teve certeza que nunca esteve errada a respeito de ser o amor, em si, a emboscada. Guardou para si o caderno da avó, para lembrar bem, no futuro, do que se trata o amor, se um dia o coração titubear. E, antes de sair da casa, escreveu uma pequena carta para Augusto, o ex-namorado.

 

“Querido Augusto,

 Um peixe nunca entra na armadilha se souber que vai ser preso. Não é da natureza dele. A natureza do peixe é seguir livre. Há um oceano inteiro a ser explorado. Cair na tela é uma condenação. Casar-me com você seria me oferecer para o sacrifício.

Assim vives o amor: essa ilusão de que está em mim o que gostarias de ter em ti. Amar se refere ao sentimento, nunca a uma pessoa, e por isso estou te deixando. Tenho o mar sob meus pés, e é meu querer ser livre. O amor, Augusto, é vão. Para que ele dure, não se deve fazer certas perguntas. O amor não pode duvidar, não. Tem que ter certeza, mesmo quando parece que o mar está agitado. Continuar remando. Mas a tempestade e as dúvidas, Augusto, sempre chegam, cedo ou tarde. E são elas que matam o amor.

Você jogou a trama, como te ensinaram, e puxou, puxou, puxou… O peso fazia parecer que estivesse cheia, porque você não enxergava o que estava arrastando. E na tua imaginação, havia um peixe enorme, o maior de todos. O que todos queriam pescar. Quando o arrastão saiu da água, não havia nada. Apenas a fantasia do que seria uma vida perfeita. Uma vida que só existe no que você não pode tocar: a tua imaginação.

Uma rede é uma soma de nadas. Linhas amarradas que contêm o vazio. É só a promessa de segurar alguma coisa que precisa entrar nela por vontade própria. Uma ilusão de agarrar um dia o grande peixe.

 

Seja feliz,

 

Marina.”

 

 

De pombos e de ciclos

Nunca tive amor aos pombos. Aves estranhas, que destinam a existência inteira a arrulhar e  comer. Incomodam os passantes, fazem sujeira sem fim sobre as calçadas, os carros. Nunca me incomodei ao ver as armadinhas nos parapeitos das janelas, prontas para sacrificar esses bichos inventados num descuido da criação do mundo. Pombos são só pombos. Ou eram.

Da janela do escritório, telhados me saúdam todos os dias quando estou só. O  olhar vaga entre o cinza do dia e as telhas de um laranja opaco que chega a ser quase triste. Só o cigarro e os blues  me fazem companhia. Vez em quando um sino marcando a hora exata me chama para o mundo ao qual eu pertenço, embora nem sempre esteja ali.

Passei um inverno inteiro sem vê-los, os pombos. Única vida ao alcance da minha visão, até essas aves medonhas deixaram o frio para trás. Fiquei na mais pura solidão, escrevendo e olhando a cor das telhas mudar aos poucos do pálido laranja para um branco do qual nada se aproxima, senão a própria neve. Foram meses de silêncio. Recolhimento. Os pensamentos, tão gelados quanto o vento, me faziam esquecer daquelas criaturas, como se a existência deles dependesse de serem vistos, e não da memória.

Veio o verão e as aves voltaram. Todos os dias, no mesmo horário, os arrulhos competiam com os sinos no que seria uma briga de sons. As telhas, contrastando com o céu azul, ganhavam movimento com o bater de asas e os bicos carregando pequenos galhos e recolhendo qualquer coisa que pudesse ser alimento. Eles eram minha companhia nos finais de tarde, quando todo o mundo já havia ficado para o lado de fora. Da minha casa. Do meu peito.

Agora, pleno outubro que já vem esfriando, não deveriam mais estar por aqui. Não é da natureza desses bichos esperar o frio chegar para irem embora. E eles me surpreenderam. Eu lia uma mensagem que explicava de sentimentos, desse movimento de ir e vir que a vida nos impõe. Desse calendário próprio que a gente tem sem se dar conta e que, sem a gente calcular, encosta a nossa própria vida em outras e de repente faz uma curva que a gente não sabe quando vira paralela de novo. Eu lia, concentrado, no quentinho do escritório, enquanto o cinza brincava com o laranja das telhas e o frio fazia tremer quem estava nas ruas. E pensava naquelas palavras que, sozinhas, nada diriam. E nas entrelinhas que deixavam que o não dito fosse escrito pela minha imaginação.

Foi num piscar de olhos, entre o absorver da fumaça e o gole da cerveja que eles passaram voando, cortando o gelo do ar denso que separava a minha janela do telhado à minha frente. Passaram como quem se exibia para a plateia, mostrando a coragem de enfrentar um frio que não conseguem suportar, mas que  era leve em detrimento da singeleza do voo, naquele momento.

Me senti nostálgico. Não daquela nostalgia que faz a gente perder o rumo e ouvir Elis Regina cantar Atrás da Porta até querer cortar os pulsos, mas uma nostalgia quente bem no meio do peito, e uma voz que me dizia: o calor interior vai voltar. Ele sempre volta, como voltam os ciclos da lua. Voltarão os dias em que meu mundo perfeito é estar totalmente sem mundo. Volta o silêncio feliz do sossego de braços como volta o voo dos pombos. Tão previsíveis, que a gente nunca espera.