Ontem levantei do conforto da cama, saí do geladinho do ar condicionado e fui correr. Também recuperei parte dos meus escritos e coloquei – de novo – a cara na janela. Ontem eu chorei um pouco.

Eu vinha, há alguns dias, pensando no abraço que queria dar em uma amiga que está frágil. Não dessa fragilidade chorosa que acomete as pessoas do ponto de ônibus, da sala de aula, do boteco da esquina. Ela tem uma fragilidade dos que vivem num mundo inacessível aos olhos e aos ouvidos. Ela sangra, silenciosa, no meio do labirinto.

Quando a gente está mais retraída do mundo e mais propensa a viver na caverna do que na vida real, os sentidos ficam muito mais aguçados. Assisti um vídeo que fala dos 5 maiores arrependimentos que as pessoas em estágio terminal relatam e concluí que ouço todos os dias gente falando sobre essas coisas, que gostariam de ter na própria vida, mas que nunca começam a fazer. Acontece que chega um dia em que não dá mais tempo. Não há mais como recuperar o que não foi feito.

Quem acompanha doentes terminais por um tempo – longo, curto, não importa – aprende a ver nessas atividades corriqueiras que a gente costuma deixar para depois – quando tiver dinheiro, tempo, ou quando os filhos crescerem, quem sabe – oportunidades para recomeçar a vida todos os dias. Acredito que essas partidas lentas, nos fazem enxergar melhor que a cada instante acontece uma pequena morte. Essas constatações servem para nos despedirmos um pouco do que amamos – no outro e em nós – e também para criarmos coragem de matar nos nossos dias tudo o que não faz sentido.

Às vezes a gente é covarde, a ponto de viver uma vida inventada para agradar o outro. Mãe, pai, namorada, marido. Aprendemos a ser outras pessoas que se comportam como esperariam que a gente se comportasse. Trabalhamos incansavelmente como se abstrair fosse privilégio de poucos. Deixamos de dizer o que sentimos porque temos vergonha, medo, pudor de amar. De sentir. Ressentir. Muito rivotril e pouco abraço. Esquecemos de ligar para os amigos – aqueles que, quando estamos absurdamente felizes suportam nossa alegria e que quando estamos derrotados seguram nossa mão em silêncio. Viciamos no sem sabor, sem perfume do atropelo e não nos permitimos ser mais felizes. Não entendemos que tudo é uma escolha nossa e que não se arrepender – à beira da morte ou no fim do dia, tanto faz, depende do que escolhemos. Às vezes morremos – ainda que vivos – muito antes do tempo.

Eu, ontem, falei com duas amigas que amo. Uma me deu devolve a sanidade, e eu respiro. A outra acolhe meu encantamento, e eu a reverencio. Eu ontem parei para amar minhas semelhantes. Observar minha vida. Ver meu filho mastigar de boca aberta e minha filha perder mais um dente. Eu, ontem, fiquei feliz cantando “Feeling Good” desafinada e dançando descalça pela sala. Também absorvi minha ansiedade diante do futuro e me permiti deixar pra lá. Eu, ontem, quis viver.