Angústia da separação.
Foi esse o nome que deram para a minha primeira saudade.
Não importa. Saudade sempre é um buraco negro no meio do peito.

Saudade pelas mortes, pelas despedidas temporárias, que acabaram sendo para sempre.
Saudade de cheiros, de lugares, de pessoas, de gostos, de pensamentos, de climas.
De uma roupa, um brinquedo, um olhar. De um toque, um sorriso, um estado de espírito.

Saudade de uma palavra. Da letra escrita num pedaço de guardanapo.
Saudade do que já foi, do que não existiu, mas poderia ter existido.
Saudade dos pensamentos.
Saudade do que virá. Do minuto em que os olhos se abriram pela primeira vez.
Do primeiro chute do bebê na barriga, de estar do lado de dentro da barriga.
Do cocô que o passarinho fez na blusa no primeiro dia que vi alguns olhos.
Saudade de nunca ter visto outros olhos.
Da mão canhota do coleguinha da escola segurando o lápis.
Do primeiro porre, do primeiro dia na faculdade.
Saudade dos sentimentos sem compromisso, da própria falta de compromisso.
Saudade do que de tão infinito se acabou.
Dos dias de sol na cachoeira. Das noites de frio no cobertor.
Das tardes cinzentas com o pensamento lá longe.

Saudade da risada da mãe. Do assovio do pai. Da gritaria das crianças na rua.
Do barulho de grimpa estalando no fogo. Do cheiro de pinhão ardendo no braseiro.
Do tacho de doce de figo no fogão a lenha. Saudade do tempo.
Saudade de mandar cartas pelo correio, do vento no pátio da fazenda.
Do pé de chorão se descabelando em folhas.
Das fotos que o fogo lambeu. Do fogo que a vida apagou.
Saudade que de tão grande murchou.
Saudade do medo de ir, da tristeza de voltar, da angústia de ficar.
Saudade da ansiedade de não ser.

Do blues no sábado de manhã. Do jazz de madrugada. Do rock como canção de ninar.
Saudade que gritou. Dos dias que não entendi. Dos dias que aprendi também.
Saudade de esquecer, de pertencer, de libertar.
Saudade que ainda não acabou. Saudade do que vou recuperar.
Saudade que não vai durar.

Saudade dos pés esfregando pra aquecer.
Das unhas roídas por fora. Do coração carcomido por dentro.
Dos dias que passam depressa. Das noites que poderiam ser eternas.
Saudade da vida que vivi. Da vida que sonho acordada.
Saudade do desejo, da satisfação, do que nunca se contenta.
Saudade do que se disse, do que se ouviu, do que se calou.
Saudade dos cabelos deitados sobre o travesseiro, dos cachos voando ao vento.
Saudade das tatuagens desfeitas, aborto de mim mesma.
Saudade das páginas não escritas, versos imaginados.
Da poesia vivida e da não vivida também.

Saudade do fundo do mar, do céu azul. Saudade de vagar.

Divagar. Flanar.
Saudade das estradas. Dos caminhos que não me levaram a lugar algum.
Das rotas que me trouxeram felicidade.
Quanta saudade de me perder…