Sempre que eu volto – da lua, do sonho ou do longe – nunca mais sou eu mesma. Para sempre, algo em mim se desloca. Do corpo, da alma, dos pensamentos. Desmancham-se os quereres. Mania de desembarcar como quem acaba de ser parida. De achar que toda partida é uma palmada e que ao aspirar a primeira lufada a contagem zera. Estranha mania de recomeçar. Coisa de quem não sabe brincar longe do seu quintal, que logo se perde. Coisa de quem olha por cima do muro e logo se encontra. Delírio de quem acha que as ruas são um labirinto e que fantasia que o Minotauro sempre há de devorar de mansinho um coração. Hábito de quem tem o peito sempre à mostra. Sempre aberto. Sempre pronto.

Sempre que eu me desdobro em outras e as certezas se desintegram, me despeço. Vão-se os planos, ficam as lembranças. Caem alicerces, voo em plumas. Parto. Deixo partir. Sempre que eu não sou eu, renasço. Partículas de mim se erguem e criam outra que serei. Até que eu desembarque de mim, e me recrie. Infinitamente.

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