Mesmo que não veja com clareza, as coisas ainda existem.  Poucas palavras, muito muito poucas das que puderam ser guardadas. A memória nunca ajuda nessas horas. Algumas frases que eu lembro, por mágoa, ou de birra de esquecer. Outras que talvez nem tenham sido ditas, mas que eu pensei que foram, então elas existem na minha criação.

Alguma memória triste de um dia de sol. Um braço acenando tchau que eu não sei se foi daquele jeito que eu lembro, mas se eu inventei que foi assim, então assim é.  Alguma outra lembrança boa de um último dia de garoa, não sei direito quando, na confeitaria daquela rua antiga, de um nome esquisito, com uma torta que eu não sei o nome, mas que eu guardo o gosto. Então ela se parece com o sabor que eu conheço. Um resto de afeto, lá no fundo da despedida, onde as raspas, os restos, o pouco quase se perdeu. Mas eu, na cama elástica no fundo do peito, fiz isso tudo pular, pular, pular e recolhi de volta, então ficou guardado. Uma lágrima não chorada, transformada em saliva, xixi, suor, que saiu de mim enquanto eu pensava em outra coisa, sem que eu sentisse que ia embora. Só a lágrima chorada lava a alma, só a lágrima chorada canta como aquelas lavadeiras de vestido branco cantam uma melodia melancólica e cotidiana, enquanto batem a roupa na pedra da beira do rio.

É impressionante como as coisas existem em mim, ainda que eu invente. Eu não vejo com clareza, mas com a imaginação que aquela louca, um dia, me disse que me salva. Ou ela disse, depois, que me mata? Eu não sei, mas  sei que se imagino, então existe. Está aqui, embora eu não veja com olhos de enxergar, assim como eu não vi com nitidez as alegrias que era para eu escrever no caderno de anotar alegrias que ele me mandou lá de longe, faz um tempo, e que escreveu numa cartinha com letra bem bonita que era para eu registrar. Eu não anotei porque não imaginei que alegrias eram essas, então elas não existiram. Agora, eu olho triste para o caderninho em branco, com capa azul de borboleta, que ele me imaginava uma borboleta (e então eu era), e eu não soube pousar.

Existe, ainda, mas eu não vejo com exatidão, aquele pano colorido, quase festa do sol, que eu guardo escondido lá no fundo do armário, porque antes dele existiu aquele menino deixado na beira da estrada, tarde da noite, que se despediu e não olhou para trás. Não mora mais aqui, mas porque eu sei dele, ele existe: aquele sofrimento de pensar naqueles olhinhos na escuridão do subúrbio, indo rumo a que lugar, mesmo? Eu lembro, também,  mas não sei se existe, daquela música que embalava Rosa del Sol no dia frio, e ela trombava  nas pernas das moças. Os planos de ir a Granada, não estou certa de terem ficado prontos, mas existem, na invenção, embora nunca tenham sido muito claros. Existem? O inverno que programava o verão e olhava o Pacífico também ainda ronda, entre um mundo e outro.

Existe, embora não seja certa, a promessa de um brinde estranho numa noite fria. Entre os demônios e os anjos, que gargalham dentro de um e de outro. Existem dois pobres diabos que bebem um copo de cachaça antiga e batucam na caixa de fósforos antes de ir embora. Malandros. Canalhas. Sem salvação.