Image

(…)

Escuta, Minotauro: não adianta mais tomar remédios para dormir, eles não fazem mais efeito. Nem adianta rodar o labirinto, entediado. É dolorida mesmo a solidão dos pensamentos. Saia um pouco dessa rota conhecida das curvas onde mora. Aproveite que na minha insônia deixei o fio solto no caminho que traz até meu mundo paralelo. Antes de chegar, porém, dê um jeito de esconder teus olhos tristes. 

Não tenha medo se me encontrar dormindo. Não pense que não pode mastigar os corações que repousam. Meu coração, Minotauro, não descansa nunca, e é por isso que sempre te espio e vou embora, para dormir miudinha, como convém a uma pequena garota que se assusta com o barulho das tuas patas.

Quando chegar, venha quietinho pra matar meu coração. Arranque-o com cuidado, mastigue sentindo o gosto. Depois vá embora. O que sobrar do meu coração, enterre no centro do labirinto. É para lá que tudo converge, e é lá que mora minha alma. No teu cansaço, encoste a cabeça junto ao chão e ouça as batidas. Então, adormeça. É só meu coração que te dá sossego.

(…)