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Perdoa por não atender quando bateste à porta, vampiro. Por lixar as unhas enquanto você esmurra o chão, as paredes, o próprio peito. Perdoa por te deixar a dois passos da soleira da porta, sem te fazer o convite. Perdoa por não querer mais o ritual de água benta, réstia, crucifixo. Por não me oferecer mais para me ferires. Perdoa pela minha lucidez. Por, em vez da imortalidade, te oferecer uma estaca.

Perdoa se não posso te dar mais meu oxigênio. É que preciso, mais que antes, respirar, e minha fé no invisível da tua falta de planos se desfez. Perdoa se minhas palavras se calaram aos teus ouvidos, se meus dedos agitados não tamborilam mais uma bossa nova em tua mesa, se minhas cartas não atravessam mais os mares em garrafas. Perdoa ter te esquecido de repente.

Perdoa o desamor que te ofereço, como quem entrega rosas murchas, secas, deixadas fora da água porque não tiveram mesmo importância de existir. Perdoa essa falta de assunto que assombra todos os espaços por onde estamos. Essa sombra de desnecessidade que construímos. 

Perdoa se desenlouqueci sem me despedir, por não ter olhado para trás, não ter levado a escova de dentes ou o pente. Perdoa por mandar meu destempero andar descabelado em outra freguesia. Perdoa por ficar sentada enquanto a loucura que nos unia ia embora e observar os movimentos sem sentir melancolia, nem mágoa, nem nada. Perdoa por assoviar e fechar os olhos enquanto o desatino se despedia. Perdoa por respirar, por ser feliz, por olhar o dia pela janela. Perdoa por ser livre.