Eu queria escrever uma carta bonita, Leonor, mas tudo que há de bonito em mim está escondido, com medo de doer. Saca como é? Aquele frio na barriga que a gente não sabe se vai ou se fica. E que dá medo. E que a gente não quer doer de novo.

Naquele dia acordei triste e te disse que preferia morrer a ser triste de novo. E você me mandou descascar laranja, que descascar laranja exige concentração e espanta a tristeza. Pensei, então, em envenenar a laranja e engolir cada gomo, mas Zeldinha disse que morrer de veneno não é legal, que deve doer estribuchar. Como se a vida doesse menos. Não sei. Fiquei com mais medo de voltar como a filha da Joelma do Calypso pra pagar as penas, como você disse que aconteceria se eu me matasse. Abandonei a ideia da cicuta, dos comprimidos. 

Por fim, depois de descascar dúzias de laranjas, concluí que já estou envenenada. Amar é que mata, Leonor, mas mata bem. E estamos condenadas, você sabe. Mesmo que o amor seja orbitar em torno de qualquer astro que nunca nos toque. Mesmo que amar seja brincar de carrinho de bate-bate: choca, machuca e a gente dá risada e bate de novo. Mesmo que amar seja essa montanha-russa em que a gente se arrasta para chegar no topo e depois ergue os braços e grita, sabendo que vai parar lá embaixo de novo e que vai ter que recomeçar tudo. Mesmo que seja montar um quebra-cabeças de cinco mil peças no escuro. 

Será que tinha razão o velho Buk quando disse “Ache o que ama e deixe isso te matar”? Então amar é o verdadeiro suicídio, Leonor. E morrer é ser feliz, de verdade. Preciso contar isso pra Zelda, que ela não vai acreditar! Nem a menina Alice, que tão nova já tem até epitáfio. Não lembro o que ela pediu para escrever, mas era engraçado, eu juro. Ela acha que a morte – ou era a vida? – É uma piada. Precisa saber que a vida é morrer de amor.

Leonor, eu queria te escrever uma carta grande, mas meus pensamentos flutuam por coisas pequenas, bem pequenininhas, como aqueles pequenos insetos chamados “esperança”, pulando sem parar na cabeça, no peito, na alma.

 

Com amor,

 

Virgínia