Nunca tive amor aos pombos. Aves estranhas, que destinam a existência inteira a arrulhar e  comer. Incomodam os passantes, fazem sujeira sem fim sobre as calçadas, os carros. Nunca me incomodei ao ver as armadinhas nos parapeitos das janelas, prontas para sacrificar esses bichos inventados num descuido da criação do mundo. Pombos são só pombos. Ou eram.

Da janela do escritório, telhados me saúdam todos os dias quando estou só. O  olhar vaga entre o cinza do dia e as telhas de um laranja opaco que chega a ser quase triste. Só o cigarro e os blues  me fazem companhia. Vez em quando um sino marcando a hora exata me chama para o mundo ao qual eu pertenço, embora nem sempre esteja ali.

Passei um inverno inteiro sem vê-los, os pombos. Única vida ao alcance da minha visão, até essas aves medonhas deixaram o frio para trás. Fiquei na mais pura solidão, escrevendo e olhando a cor das telhas mudar aos poucos do pálido laranja para um branco do qual nada se aproxima, senão a própria neve. Foram meses de silêncio. Recolhimento. Os pensamentos, tão gelados quanto o vento, me faziam esquecer daquelas criaturas, como se a existência deles dependesse de serem vistos, e não da memória.

Veio o verão e as aves voltaram. Todos os dias, no mesmo horário, os arrulhos competiam com os sinos no que seria uma briga de sons. As telhas, contrastando com o céu azul, ganhavam movimento com o bater de asas e os bicos carregando pequenos galhos e recolhendo qualquer coisa que pudesse ser alimento. Eles eram minha companhia nos finais de tarde, quando todo o mundo já havia ficado para o lado de fora. Da minha casa. Do meu peito.

Agora, pleno outubro que já vem esfriando, não deveriam mais estar por aqui. Não é da natureza desses bichos esperar o frio chegar para irem embora. E eles me surpreenderam. Eu lia uma mensagem que explicava de sentimentos, desse movimento de ir e vir que a vida nos impõe. Desse calendário próprio que a gente tem sem se dar conta e que, sem a gente calcular, encosta a nossa própria vida em outras e de repente faz uma curva que a gente não sabe quando vira paralela de novo. Eu lia, concentrado, no quentinho do escritório, enquanto o cinza brincava com o laranja das telhas e o frio fazia tremer quem estava nas ruas. E pensava naquelas palavras que, sozinhas, nada diriam. E nas entrelinhas que deixavam que o não dito fosse escrito pela minha imaginação.

Foi num piscar de olhos, entre o absorver da fumaça e o gole da cerveja que eles passaram voando, cortando o gelo do ar denso que separava a minha janela do telhado à minha frente. Passaram como quem se exibia para a plateia, mostrando a coragem de enfrentar um frio que não conseguem suportar, mas que  era leve em detrimento da singeleza do voo, naquele momento.

Me senti nostálgico. Não daquela nostalgia que faz a gente perder o rumo e ouvir Elis Regina cantar Atrás da Porta até querer cortar os pulsos, mas uma nostalgia quente bem no meio do peito, e uma voz que me dizia: o calor interior vai voltar. Ele sempre volta, como voltam os ciclos da lua. Voltarão os dias em que meu mundo perfeito é estar totalmente sem mundo. Volta o silêncio feliz do sossego de braços como volta o voo dos pombos. Tão previsíveis, que a gente nunca espera.