*Publicado originalmente em escritorassuicidas.com.br

 

“Quando é bom não dura e quando dura já não entusiasma”

(Jurandir Freire Costa)

 

“Uma rede é uma soma de nadas. Linhas amarradas que contêm o vazio. É só a promessa de segurar alguma coisa que precisa entrar nela por vontade própria. Uma ilusão de agarrar um dia o grande peixe.”

 Marina chegou à antiga casa dos avós bem cedo naquele sábado. Entrou devagar, observando a casa onde passou a infância. Percorreu os cômodos escuros, onde só havia o silêncio desabitado. A placa anunciando a venda da casa, no jardim, anunciava o fim de um ciclo. A garota assistia, agora, o fim do amor.

 “Por muitas vezes cheguei a achar que meu casamento foi um erro. As traições contínuas do Agenor, a humilhação de todos saberem dos casos, jamais se afastaram completamente de mim. Nunca esqueci das brigas. Os gritos, as agressões mútuas que só terminavam quando percebíamos que as crianças choravam apavoradas, escondidas sob os travesseiros. Não foram poucas as noites em que passei acordada, desesperada por saber onde Agenor estava, ou se voltaria para casa. Outras tantas vezes, fingi não saber de nada. No fim da vida, me pergunto: foi ele quem entrou na minha armadilha de casamento ou fui eu que caí na teia ilusória da felicidade completa?”

 Marina fechou o diário, cuja última página escrita soava como um desabafo. A única história de amor possível que conhecia, acabava de se desmanchar diante de seus olhos. Se aquele amor que, aparentemente, era feliz, não tinha toda essa alegria, que esperanças ela poderia ter no amor?

 Marta, sua avó, havia ficado viúva há cinco meses. Tempo suficiente para perder o brilho os olhos envelhecer a ponto de aparentar bem mais que seus 65 anos. “A vida está me escapando”, dizia ao se olhar no espelho e constatar que os cabelos estavam cada vez mais brancos e a pele cada vez menos lisa. Um mês antes de morrer, porém, abriu o velho caixote, grande e empoeirado, como as próprias lembranças, e ficou por longos minutos olhando para o emaranhado das linhas, o amontoado de agulhas, o malheiro. Perdida em pensamentos sobre o passado, foi puxando a renda, que por vezes se enroscava nas lascas da madeira da caixa e arrebentava um ou outro nó, dilacerando o tecido, aumentando o buraco por onde nada entraria nem escaparia. Estendeu a trama não terminada no chão e lembrou das longas tardes em que o marido se sentava na varanda da casa para tecer. Agora, tudo estava morto: o marido, com quem ela viveu por 45 anos, o amor, pelo qual ela lutou ao longo da vida, a possibilidade daquela malha interrompida algum dia ter serventia.

 “As dificuldades foram muitas”, escreveu logo depois que o marido morreu. “Não sei se vou suportar viver sozinha, porque me acostumei a andar junto. Perdoei mil vezes, aguentei todo tipo de dificuldade. Mas em nome de quê? De satisfazer os sonhos que as pessoas fazem uma garota de 20 anos acreditar que são satisfatórios? Depois de um tempo me acostumei à solidão acompanhada dos casais que não se amam mais. Como se nadassem juntos para uma mesma direção, mas sem nunca se tocarem: nenhuma palavra, nenhum afeto. O amor morre quando a gente pensa que se ele estiver bem amarrado não vai fugir. Bobagem! Só o que a gente faz é arrastar um amor morto junto ao próprio corpo. Agora minhas nadadeiras estão quebradas e não posso mais enfrentar o mar.”

 Marina encontrou a casa do jeito que a avó tinha preparado. A mulher procurava um lugar menor para viver, já que estava sozinha. Se apequenou, como se apequenam certos tipos de peixe, diante da vastidão do mar. Estava se desfazendo de antigos objetos muito familiares a ela. Às vezes, mergulhada em velhos armários fechados há anos, descobria velhos guardados que o marido mantinha, como o caixote que ela acabara de abrir. Uma caixa de Pandora das próprias lembranças, das quais ela aos poucos se desfazia. A morte, porém, pegou a mulher de surpresa. À neta coube a tarefa de desmontar a casa, a história da família.

 Uma semana antes, Marina rompeu com o namorado, Augusto, que a havia pedido em casamento. A garota, de 25 anos, não concebia que a felicidade de alguém pudesse vir de outra pessoa.“Ninguém pode ser feliz estando preso, vovó. Amar pressupõe liberdade. Fora disso, é escravidão”, ela ensaiou argumentar para quando a avó a julgasse louca por recusar o pedido. Ela conhecia bem a história da avó, que moveu mundos em nome do próprio casamento. Marta, que em termos de amor só tinha o marido como experiência, contou milhares de vezes à neta como desejou se casar. Como tramou milimetricamente para que tudo saísse conforme seus planos. Como afastou as possíveis rivais uma a uma espalhando pela cidade inverdades a respeito delas,  como traçou planos para trazê-lo à sua casa, e que não deixou margem para que ele escapasse a qualquer encontro. Levou-o, enfim, ao altar, vitoriosa. 

 Marina finalizou a leitura do diário estarrecida por constatar que as artimanhas da avó não tenham resultado na felicidade sem fim, como houvera programado. Paradoxalmente, teve certeza que nunca esteve errada a respeito de ser o amor, em si, a emboscada. Guardou para si o caderno da avó, para lembrar bem, no futuro, do que se trata o amor, se um dia o coração titubear. E, antes de sair da casa, escreveu uma pequena carta para Augusto, o ex-namorado.

 

“Querido Augusto,

 Um peixe nunca entra na armadilha se souber que vai ser preso. Não é da natureza dele. A natureza do peixe é seguir livre. Há um oceano inteiro a ser explorado. Cair na tela é uma condenação. Casar-me com você seria me oferecer para o sacrifício.

Assim vives o amor: essa ilusão de que está em mim o que gostarias de ter em ti. Amar se refere ao sentimento, nunca a uma pessoa, e por isso estou te deixando. Tenho o mar sob meus pés, e é meu querer ser livre. O amor, Augusto, é vão. Para que ele dure, não se deve fazer certas perguntas. O amor não pode duvidar, não. Tem que ter certeza, mesmo quando parece que o mar está agitado. Continuar remando. Mas a tempestade e as dúvidas, Augusto, sempre chegam, cedo ou tarde. E são elas que matam o amor.

Você jogou a trama, como te ensinaram, e puxou, puxou, puxou… O peso fazia parecer que estivesse cheia, porque você não enxergava o que estava arrastando. E na tua imaginação, havia um peixe enorme, o maior de todos. O que todos queriam pescar. Quando o arrastão saiu da água, não havia nada. Apenas a fantasia do que seria uma vida perfeita. Uma vida que só existe no que você não pode tocar: a tua imaginação.

Uma rede é uma soma de nadas. Linhas amarradas que contêm o vazio. É só a promessa de segurar alguma coisa que precisa entrar nela por vontade própria. Uma ilusão de agarrar um dia o grande peixe.

 

Seja feliz,

 

Marina.”