“Não te opõe ao curso do rio

Nem persegue o vento”

{Vanguart}

Marc Chagall, Promenade, 1917–18.

Marc Chagall, Promenade, 1917–18.

Gosto de pensar que palavras não dizem nada. Que nomenclaturas não representam o todo. Que o que faz sentido mora do lado de dentro, move, faz fluir – mesmo que tudo pareça silêncio – com a força de um tsunami. Gosto de saber que o que importa não tem relógio nem aviso sonoro. Que o que faz sentido não pergunta o que quer o eu mais íntimo, mas faz o mais profundo do ser flutuar sobre a água morna dos dias, sereno apesar das ondulações. “É só soltar o corpo que o mar não te afoga”, aprendi. Gosto de sentir que o que importa não se enquadra em teorias, raciocínios, princípios, fundamentos, especulações.

Sentir é pessoal. Não tem condições nem regras. Não tem tempo nem espaço. Sentir é um mundo paralelo. Montar quebra-cabeças de cinco mil peças no escuro é um mundo paralelo. O vento que muda tudo de lugar por dentro é um mundo paralelo. Estar de olhos abertos quando nasce o sol é um mundo paralelo. Ver o fio do dia se romper e de repente a escuridão chegar é um mundo paralelo. Acontece ininterruptamente e, no entanto, é sempre único e tantas vezes esquecido, a não ser que.

Gosto de pensar que a não ser que estejamos atentos não vemos o instante. Aquele. A não ser que seja um tempo remoto, é sempre hora. A não ser que seja outro mundo, é sempre muito perto e aqui dentro. Gosto dessa sensação incomum e tão familiar que não se nomeia, não se define, nada abrange nem questiona. Tenho um jeito estranho de gostar.