Delirium (Sandman)

{Publicado originalmente em escritorassuicidas.com.br}

Ouvi o grito em mim e às sete da manhã estalei os olhos sem mover mais um músculo sequer. Olhei para o teto. Era tudo silencioso. Só o barulho de ir e vir da respiração me distraía.

Um aperto no peito. Como se nunca mais fosse capaz de me libertar dele de novo. Uma agonia sem nome. Solidão. Tristeza. Raiva. Não sei. Não entendi ainda o que era. Eu pensava como se estivesse do lado de fora de mim e aquele deitado na cama fosse outro, de quem eu nunca soubera.

Era eu aquele paralisado, de olhos abertos e coração disparado. Mas eu não mandava em mim. Eu já não coordenava mais minhas ideias. Era só o aperto no peito e aquela voz, tão sinistra e familiar que me dizia, no silêncio dos meus pensamentos: você não vai escapar.

Escapar. De quê? De quem? Eu não sabia rezar. Nem chamar Deus, se é que ele de fato existia ou se importava comigo, com minha consciência corrompida, com meu corpo quase decomposto e, entretanto, vivo. Deus não estava ali para me devolver a mim. Nunca estaria. Ninguém me traria de volta. Nem deuses, nem demônios.

Um cigarro. Dois. Dez. Nem meia hora, outro uísque. O fim da garrafa de vodca polonesa. Minha preferida e eu não comprei outra. Não importa. Eu não sou eu. Eu sou aquele que construí e que não tem preferências. Ou eu sou o outro, o que não sabe que eu existo ou que quer me enlouquecer? A faca me olhando de cima da mesa. Aquela música, de novo. Eu não queria lembrar. E eu cantava. Nervosamente, cantava enquanto a voz gargalhava aqui dentro. Deixei de fumar para saber que eu ainda mandava em mim. Parei de beber porque precisava ter certeza de que ainda controlava meu desejo.

Desejo, um estranho. Desde quando saí de mim não sei mais o que é o querer. Quis tanto, demais. Quis tudo. Agora, não sei mais o que me mantém vivo. Não sei mais o que me deixa ser lúcido dentro do caos. Quase dois meses aqui, fechado nesse quarto e eu ainda não sei.

Escrevo cartas de despedida. Cartas de amor tardio. Cartas de desabafo. Entupo e-mails indiscriminadamente porque estou só. Com minha abstinência. Minha revolta. Minha dor. Minha melancolia. Meu medo de amar e de não amar. Tenho adorado figuras distantes e antigas, como se fossem parte de um altar pessoal. As mesmas pessoas que eu não quis manter por perto. Quem explica? Quem garante que minha loucura não começou muito antes de eu estar aqui, tentando saber quem manda em mim — eu ou o outro eu?

Esboço me levantar e a chuva bate na janela. Sento-me na cama. Nada em mim me pertence. Tento voltar e conjugo verbos. Primeiro os regulares, depois os irregulares. Me distraio por horas, como se um dia pudesse usá-los de novo.