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O Retorno de Ulysses – Giorgio de Chirico

O que acontece quando se dá mais de 40 voltas em torno do mesmo lugar? Como é que o olhar se transforma? Você canta no mesmo tom ou mais afinado?

Se fosse 20 e tantas voltas atrás, desafinaria. Cantaria em outro tom. Mais grave, como a cabra montanhesa agarrada na pedra. Primeiro dó do piano. Inatingível.

Vinte voltas à frente, duas oitavas acima. Afinada. “I’m feeling good”, canta a Nina e ela acompanha. Solta o corpo e o mar a leva. Abre os olhos devagar para não cegar: “Sun in the sky, you know how I feel”.

Joga os dados. Volta 20 casas, mas se mantém 20 casas à frente. Tempo e espaço são relativos, disse aquele moço Einstein, e estes dias ela tem compreendido. De que matéria eles eram feitos 5 tons abaixo? Vieram da poeira da mesma estrela, que a matéria é magnética? Teria sido impossível duas oitavas abaixo, mas como achar duas oitavas acima sem elas?

Rodopiou mais de 40 voltas. “Tava tudo tão facinho no rasinho e eu sem me dar conta fui indo”, canta o radinho. E o mar a leva. A leva. A arrasta.

Hoje ela sonhou com o mar. Com o cheiro que tem o mar quando a pessoa zarpa. Hoje ela sonhou que não havia porto. Havia um labirinto aquático e não era mais possível desembarcar. Ela ondula solfejando oitavas e escrevendo entrelinhas quase invisíveis. Escolhendo nas veredas bifurcadas infinitamente, constrói seu próprio labirinto entre as águas. Às vezes cansa e se deixa solta, a observar. Sente a bola de fogo que sobe e desce no peito e a queima com calma. Deixa o corpo afundar e de repente, depois da apneia, tudo é mansidão.

Navega. Navega. Mais uma volta, duas, dez. Uma oitava acima, ou abaixo. Concerto para piano e voz.