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Os pés. As mãos. A boca entreaberta enquanto dorme. Cliques silenciosos da retina. Fotografia não impressa da intimidade, para guardar os detalhes do que não se segura no tempo ou no espaço. Talvez em algum cantinho da memória.

Eles levam potentes câmeras, de longuíssimo alcance. Registram a flor, a nuvem, o concreto. Mais reservadamente, colecionam no olhar os pares de pés de todos os amados. Os passos na própria direção e os que se afastaram na hora de ir. Guardam nos olhos fechados as mãos agarrando objetos, escrevendo histórias, fazendo brindes, empunhando instrumentos. E como se a memória fosse um álbum de fotos, folheiam cada toque com a lembrança.

Fotografar a intimidade com o olhar é imortalizar pequenos quadros do que se compartilha com poucos. Emoldurar o tempo. “Tempus fugit”, alguém já dizia. Ver a intimidade com perspectiva de repórter fotográfico é escolher o ângulo que melhor representa o momento a ser eternizado. É dar manchete aos afetos mais preciosos. Como uma criança com o doce na mão, guardar o melhor para o final.

Quem fotografa  mentalmente a própria intimidade prende o que nunca mais será daquele jeito na imagem e, no entanto, permanecerá para sempre igual. Guarda em permanência na memória os sentimentos de um instante.

Revive o momento quem se sabe eternamente efêmero. Fotografar o perecível é poder retornar ao que se desmanchou no ar. Ao que se desfez num sopro, num virar de esquina, num piscar de olhos. É brindar novamente ao início e ao fim de tudo.